Após início turbulento, "Terra e Paixão" chega ao fim como um grande sucesso
O começo não foi fácil. A missão de Walcyr Carrasco era reerguer a audiência do horário nobre da Globo, após o completo fiasco de "Travessia", que afundou a ótima média conquistada pelo remake de "Pantanal". Conhecido como o 'coringa' da emissora, o autor costuma fazer o impossível e sempre consegue entregar um sucesso. Pois não foi diferente com "Terra e Paixão", que estreou em maio de 2023 e chegou ao fim nesta sexta-feira, dia 19, após 221 capítulos, um número impressionante para os dias de hoje.
A história não teve um caminho tranquilo. Como a trama era longa, Walcyr optou por um início mais lento e longe dos atropelos que muitos folhetins recentes fazem para causar a sensação de agilidade. A estratégia foi inteligente e o começo se mostrou muito bem estruturado em cima da saga de Aline (Barbara Reis), que logo no primeiro capítulo viu seu marido ser assassinado a mando de Antônio La Selva (Tony Ramos), poderoso empresário do agronegócio que fez fortuna através do desmatamento de florestas e tomando terras de pequenos produtores.
Porém, após uma estreia repleta de adrenalina, o folhetim 'amornou' diante da falta de embates diretos entre mocinha e vilão e também por conta de um dilema amoroso envolvendo a protagonista. Logo na primeira semana, Caio (Cauã Reymond) se declarou para a protagonista e não houve construção alguma do sentimento. Foi algo súbito.
E já está mais do que comprovado que todo casal de mocinhos que se apaixona subitamente logo no início de uma novela não cai nas graças do público. Para piorar, Aline se encantou do nada por Daniel (Johnny Massaro), irmão de Caio, e foi algo recíproco. Se a relação com Caio estava mal desenvolvida, a com Daniel ficou muito mais rasa. Não deu para comprar aquele amor todo entre os dois. E ainda tinha Jonatas (Paulo Lessa), melhor amigo da personagem, que também era caidinho por ela.O enredo ter focado no quadrilátero amoroso da mocinha causou rejeição do telespectador e a audiência não reagia. Os números já eram melhores que o do fracasso anterior, mas ainda bem longe do que a Globo almejava. E todos sabem que o autor é conhecido pelas mudanças que faz em prol da aceitação do público. Walcyr não fica quieto diante de uma reprovação popular e sempre arranja um jeito de reverter a situação. Vale lembrar que a morte de Daniel estava prevista na sinopse da novela, mas só aconteceria perto do capítulo 100. A solução encontrada pelo escritor foi a antecipação da tragédia. E deu certo. Antes da catarse acontecer, no entanto, foi preparado um barraco familiar envolvendo a família La Selva, que logo se mostrou um dos maiores trunfos do roteiro. Caio, graças ao falecimento de Cândida (Susana Vieira), descobriu o passado de prostituição da madrasta e também soube que Ademir (Charles Fricks) não era tio de Daniel e, sim, seu pai. O caos dramático mobilizou a audiência e a sequência em que o filho mais amado de Irene (Gloria Pires) saiu de casa e morreu em um 'acidente' de carro rendeu o primeiro recorde de audiência da novela. Era a resposta que Carrasco queria.
A partir daquela virada, a novela tomou um novo rumo. A trama de Aline perdeu o protagonismo e o foco passou a ser os dramas da família La Selva. Após a morte de Daniel, Irene ganhou potência cênica e se revelou uma vilã digna de Gloria Pires, assim como Antônio, que foi ficando cada vez maior em cena. O mistério em torno da 'morte' de Agatha (Eliane Giardini), grande amor da vida do vilão, recebeu contornos que despertaram a atenção dos telespectadores, assim como o enigma em torno do desequilíbrio psicológico de Petra (Debora Ozório), que vivia a base de remédios tarja preta. Aos poucos, foi sendo revelado que a morta estava viva e que a filha caçula dos vilões tinha sido vítima de um abuso sexual quando criança. Os conflitos bem estruturados dominaram a narrativa e o crescimento da audiência virou uma constante.
No entanto, Walcyr enfrentava um período difícil. Além dos contratempos iniciais em seu enredo, o autor precisou operar a catarata e pouco tempo depois fraturou o fêmur, que o fez ficar internado por vários dias. A solução foi chamar Thelma Guedes, autora que trabalhou com ele nos fenômenos "Chocolate com Pimenta" e "Alma Gêmea" como colaboradora. E a parceria novamente deu certo. Thelma virou coautora de "Terra e Paixão" e foi vital para a condução da novela enquanto Carrasco estava impossibilitado de escrever. O escritor falava as ideias e sua amiga botava no papel. Mesmo após a recuperação do titular, a escritora seguiu na equipe até o final e a harmonia foi total. E deu para ver o estilo de Thelma através dos vários sequestros que aconteceram ao longo da obra desde a sua entrada. A própria chegada de Agatha em Nova Primavera resultou no rapto da vilã pouco tempo depois, graças a um plano de Irene. Aliás, a entrada de Eliane Giardini foi a melhor coisa da novela. Em sua quarta parceria com o autor, a veterana foi valorizada do início ao fim de sua luxuosa participação. Foram 98 capítulos intensos. A personagem, que se mostrava injustiçada e sofrida no começo, se revelou um diabo encarnado e caiu nas graças do público com suas maldades e seus chás perturbadores. A rivalidade entre as vilãs renovou o fôlego do enredo e destacou o talento de Eliane e Gloria Pires. Também sobressaiu a genialidade de Tony Ramos graças ao triângulo amoroso formado por três gigantes da teledramaturgia representando três vilões repletos de carisma. A valorização do trio reforçou o compromisso que Walcyr tem em destacar atores mais experientes, principalmente diante de um período em que o etarismo transborda na teledramaturgia. Nos demais folhetins atuais, fica visível como só os jovens são protagonistas ou têm cenas de maior importância.
E a trama das nove também teve muitos outros acertos. A saga de Lucinda (Débora Falabella) foi a melhor desenvolvida do enredo e a personagem logo despertou atenção diante do casamento abusivo que enfrentava, com direito a fortes cenas de violência doméstica. Alcoólatra e violento, Andrade (Ângelo Antônio) humilhava constantemente a esposa e deixava o filho do casal, Cristian (Felipe Melquíades), em constante estágio de alerta. Para culminar, assediava a cunhada, Anely (Tatá Werneck). O arco dramático de Lucinda teve um desdobramento crível e escapou da armadilha da repetição. O drama não andou em círculos, o que era um risco. O marido foi preso mais de uma vez e a esposa foi criando coragem aos poucos para denunciá-lo. A cena em que Lucinda fez o exame de corpo de delito marcou a libertação daquela mulher, que depois se abriu para o amor com Marino e passou a ter a vida feliz que tanto sonhava. A química de Débora com Leandro Lima era visível, assim como a sintonia com o pequeno Felipe Melquíades. E vale destacar a parceria da atriz com Tatá, que protagonizou várias sequências dramáticas pela primeira vez na carreira graças ao trabalho lindo das duas. A cumplicidade das irmãs emocionava e na reta final a intensidade ficou ainda maior por conta do atentado sofrido por Lucinda, que levou um tiro na cabeça a mando de Antônio em uma das cenas mais impactantes do roteiro.
O núcleo do bordel também deu certo e caiu no gosto popular. A luxuosa participação de Susana Vieira nos primeiros capítulos deveria ter sido maior, mas vários outros nomes se destacaram, como Valéria Barcellos (Luana), Marcio Tadeu Lima (Zezinho), Thati Lopes (Berenice), Alexandra Richter (Nice) e Diego Martins (Kelvin). Aliás, Diego ganhou cada vez mais importância na história graças ao casal formado com Amaury Lorenzo. As duas maiores revelações do enredo viraram a sensação de "Terra e Paixão". A química entre os dois explodiu logo na primeira cena juntos e toda a construção do amor entre os personagens merece elogios. Até porque Ramiro era o capanga de Antônio e matou diversas pessoas a mando do vilão, incluindo tentativas de assassinato contra Aline. Mas Kelvin também não era uma pessoa íntegra. O atendente do bar aplicou um golpe contra Luana e sempre tentava levar vantagens em cima dos outros. Ainda ensinou seu 'crush' a chantagear a Irene. Esse foi o maior atrativo do par. Pela primeira vez na teledramaturgia houve um romance gay com ambos perfis de caráter duvidoso. E Ramiro ainda era homofóbico, ou seja, não se aceitava por conta da sua criação. Somente depois de muito tempo e a inserção de uma terapia com Marta (Kika Kalache em uma ótima participação) --- psicóloga que também auxiliou Petra ---- que o matador conseguiu mudar. E Walcyr conseguiu fazer o povão torcer muito por esse amor, algo que precisa ser louvado diante de um país ainda tão conservador e preconceituoso. Os dois ainda protagonizaram uma cena de beijo que entrou para a história porque não teve nada de selinho demorado e, sim, um beijo de verdade.
É preciso citar também a coragem do autor na tentativa de criar um triângulo lésbico na trama. Mara (Renata Gaspar), Menah (Camilla Damião) e Nina (Kizi Vaz) tiveram um início bastante promissor e com tudo para render. Mas, segundo vários sites de notícias, houve uma ordem da cúpula da Globo, liderada por Amauri Soares, para que o destaque do casal fosse diminuído. As duas praticamente sumiram do enredo. Mas Renata fez uma reclamação pública no X, antigo Twitter, sobre o desaparecimento das personagens e graças a isso Walcyr e Thelma compraram a briga e passaram a escrever cenas lindas das duas. Infelizmente, o triângulo não tinha mais tempo de ser explorado, mas a relação da irmã de Jonatas com a caminhoneira ganhou relevância e com direito a várias cenas de beijo. O pedido de casamento que Menah fez a Mara rendeu um beijão digno de qualquer casal hetero. É até meio absurdo esse tipo de observação, mas ainda necessária diante da diferença de tratamento que as relações sempre tiveram nos folhetins.
Além dos êxitos já mencionados sobre a novela, não é justo deixar de fora o sucesso de Anely e Luigi. Tatá Werneck e Rainer Cadete formaram uma divertida dupla e o italiano 171 foi o responsável por duas participações que, apesar de breves, engrandeceram a história: Grace Gianoukas e Claudia Raia. A primeira interpretou a falsa mãe de Luigi e a segunda sua mãe verdadeira. Ambas protagonizaram sequências impagáveis. E vários outros atores merecem menção, como Agatha Moreira, que brilhou como Graça. A personagem teve um crível arco de redenção, o que destacou o desempenho da atriz, que transbordou química com Paulo Lessa. Ângelo Antônio esteve assustador na fase violenta de Andrade e emocionou nos momentos de arrependimento do personagem. Rafael Vitti esteve muito bem na pele do íntegro Hélio; Inez Viana deu um show como Angelina e ganhou um destaque que nunca teve na televisão; Flávio Bauraqui emocionou como Gentil; Daniel Munduruku se mostrou uma grata surpresa como o Pajé Jurecê; Leandro Lima ótimo como Marino ---- um papel com bem mais relevância que o Levi (de "Pantanal") ----; e Tatiana Tibúrcio roubou a cena como a desbocada Dona Jussara. Já a participação de Eriberto Leão vivendo o abusador Dirceu foi curta, mas marcante. Vale citar ainda Bruna Aiiso como Laurita; Rafael Gualandi como Enzo; Samir Murad como Dr. Silvério; Claudio Gabriel como Tadeu; Leona Cavalli como Gladys; Charles Fricks como Ademir; Letícia Laranja como Flor e o trio mirim que teve desenvoltura de sobra: Felipe Melquíades, Matheus Assis (João) e Maria Carolina Basílio (Rosa). Até mesmo o bebê Bryan Robert precisa ser citado porque Danielzinho foi um show à parte.
No entanto, a novela também teve erros incontestáveis. A saga da Aline não empolgou e andou em círculos ao longo dos meses. A mocinha sempre era ameaçada por Antônio, enfrentava o vilão, acabava sofrendo alguma consequência grave (prisão, incêndio da plantação e perda das terras) e depois o ciclo vicioso recomeçava. Barbara Reis esteve incrível e mostrou que estava preparada, sim, para uma protagonista. Mas o enredo não ajudou. Também não deu para engolir a redenção de Andrade. Espancador de mulher não merece final feliz, ainda que todo mundo tenha o direito a uma segunda chance. A situação não repetiu o grave equívoco de "O Outro Lado do Paraíso" (2017), quando Gael (Sérgio Guizé) foi transformado quase em um herói no final, e Walcyr ao menos aprendeu a lição, mas não precisava. Outro problema visível foi a perseguição exaustiva de Tadeu a Anely. O contexto envolvendo a Rainha Delícia divertiu no começo, mas depois perdeu a graça. Muito tempo de cena perdido em uma sucessão de bobagens. Ao invés de ter focado nisso, daria para criar um enredo interessante para Odilon, que ficou avulso no roteiro depois que Anely se juntou a Luigi. Jonathan Azevedo foi sendo empurrado para vários núcleos até parar no bordel. A trama envolvendo Yandara (Rafaela Cocal) também merecia mais destaque, enquanto a entrada na reta final de Natercinho (Daniel Rocha) pouco acrescentou.
Já os últimos momentos do enredo renderam boas cenas. O ponto negativo fica em cima da fuga da Irene, depois de ter sequestrado Danielzinho, que beirou o absurdo já que a vilã estava desarmada diante de vários policiais. Mas as demais sequências merecem aplausos, vide a impactante fuga de Antônio La Selva, que resultou no assassinato de todos os policiais que faziam a escolta do vilão. E o último capítulo foi bem amarrado e sem correria. Todos os personagens tiveram seus finais e o primeiro bloco foi repleto de ação com o casamento de Aline e Caio, enquanto Antônio ameaçava Kelvin no lado de fora da igreja, para o desespero de Ramiro. Pouco tempo depois a mocinha entrou em trabalho de parto e foi com o marido ao hospital. O paralelo entre o nascimento dos gêmeos e o assassinato do grande vilão da trama foi uma boa saída dos autores. Até porque a vida representou o sopro de esperança diante da morte do sujeito que fez tão mal a todos na cidade e justamente pelas mãos do capanga que tanto humilhou ao longo dos anos.
O ponto alto do último capítulo foi o fim do mistério do assassinato de Agatha. A vilã teve um final apoteótico, digno de sua participação, e já tinha sido desvendado que Irene tinha dado os três tiros na rival, que agonizava na escada. Mas quem empurrou ainda era dúvida. Só que no final das contas, até o envenenamento provocado por Angelina foi criminoso. Ao contrário do que disse em seu depoimento, a governanta não trocou as xícaras. Ela botou veneno para Agatha tomar, mas a vilã logo sentiu o gosto e foi correndo pegar o antídoto. E na escada estava Gentil, que a empurrou. Um plot twist que não foi vazado pela imprensa, fazendo jus a vários finais do Walcyr que surpreendem o público, vide César (Antônio Fagundes) com Félix (Mateus Solano) em "Amor à Vida", Angel (Camila Queiroz) matando Alex (Rodrigo Lombardi) em "Verdades Secretas" e Josiane (Agatha Moreira) demoníaca em "A Dona do Pedaço". A troca de risadas entre Angelina e Gentil encerrou o enigma com chave de ouro. Vale lembrar que os dois eram os únicos que sabiam que Agatha estava na prisão e não morta durante os anos que ficou sumida. Ou seja, um novo segredo guardado a sete chaves pela dupla.
E o destaque do casal Kelvin e Ramiro saltou aos olhos no último capítulo. O ex-capanga acabou na cadeia por ter matado Antônio, além de seus outros crimes, mas o casal se beijou na hora da prisão, quando Ramiro pediu Kelvin em casamento na cadeia e depois quando se casaram diante de todos os amigos, com direito ao buquê caindo nas mãos de Luana. Por falar em casal homoafetivo, impagável a sugestão do autor com o possível futuro casal formado por Tadeu e Enzo. Anely e Luigi seguiram dando golpes sem qualquer sucesso e Graça engravidou de Jonatas, que seguiu paraplégico, o que foi importante para mostrar que PCDs também podem ter uma vida feliz e normal. Vale destacar ainda o final de Irene, rica e plena ao lado de um milionário interpretado por Rodrigo Lombardi. E com um filho adotado. Mas a dúvida permaneceu: adotado mesmo ou roubado? Já a última cena foi um show de Michel Teló cantando a música de abertura da trama diante de todo o elenco. A ausência de Chitãozinho, Xororó e Ana Castela, os intérpretes originais, foi sentida. Também fez falta ao menos uma cena de Aline colhendo em suas terras, mas o momento em que os mocinhos devolveram as terras que Antônio roubou aos povos originários através do pajé primou pela delicadeza. Daniel Munduruku, Barbara Reis e Cauã Reymond emocionaram. E a sequência final com Jurecê citando uma mensagem dos Deuses encerrou a história de uma forma esperançosa.
"Terra e Paixão" chega ao fim como mais um sucesso de Walcyr Carrasco. O título de salvador da Globo segue em seu colo. A novela ultrapassou a barreira dos 30 pontos todos os dias das duas últimas semanas e terminou com média geral de 27 pontos, três a mais que o fracasso de "Travessia". Os mesmos três pontos a mais que o fenômeno "Vai na Fé", de Rosane Svartman, conseguiu reerguer do fiasco "Cara e Coragem" na faixa das sete. O público comprou a história ao longo do tempo e a repercussão foi das mais positivas. O enredo cumpriu o que prometeu e fechou seu ciclo com um recado claro: o povo quer ver atores veteranos em posição de destaque e uma trama que não tenha vergonha de mergulhar no dramalhão de um bom folhetim.
Comentários
Postar um comentário